A ideia de 50 anos que ajuda Curitiba a prevenir enchentes

À medida que mais gente migra para as cidades, cresce também a pressão sobre serviços públicos como saneamento, mobilidade e prevenção a desastres. A estimativa...

A ideia de 50 anos que ajuda Curitiba a prevenir enchentes
A ideia de 50 anos que ajuda Curitiba a prevenir enchentes (Foto: Reprodução)


À medida que mais gente migra para as cidades, cresce também a pressão sobre serviços públicos como saneamento, mobilidade e prevenção a desastres. A estimativa é que, em 2050, até 70% da população mundial viva em áreas urbanas. É nesse cenário que o conceito de ‘cidade inteligente’ ganhou força nos últimos anos. Mas usar tecnologia e dados para gerir uma cidade não significa resolver todos os seus problemas de uma única vez. Segundo Beto Marcelino, sócio fundador e presidente do Grupo iCities, empresa brasileira de inovação em cidades inteligentes, eventos climáticos extremos seguem sendo um desafio mesmo para as cidades mais avançadas do mundo. ‘Toda cidade tem muitos problemas’ “O processo de transformação que as cidades passam hoje em dia ocorre pela grande demanda de serviços públicos, afetada diretamente pelo maior número de pessoas que moram em áreas urbanas. Logicamente, o termo 'cidade inteligente' não quer dizer que são cidades plenas, cidades com seus problemas resolvidos e, muito menos, cidades sem problemas”, explica ele. “Toda cidade tem muitos problemas, no Brasil e no mundo, porque você nunca consegue atender a população de maneira uniforme”, pondera. Segundo o especialista em cidades inteligentes, a virada de chave passa pela digitalização, o uso de dados e da tecnologia para antecipar problemas, “seja de vias, esgoto ou segurança”, antes que eles se agravem. Ele cita sistemas climáticos que preveem chuvas fortes, alagamentos e desmoronamentos, além de semáforos inteligentes e sistemas que preveem picos de tráfego. Uma realidade mais próxima do ideal pode ser encontrada na Suíça, com histórico metodológico de centenas de anos, diferente do continente americano, que ainda passa por transformações nas cidades para atender a população. Quando a chuva testa a cidade Eventos climáticos extremos, como ventos fortes, granizo e alagamentos, não são novidade, mas dois fatores agravam seus efeitos hoje: mais gente morando em áreas urbanas e a pavimentação. O inverno de 2026 no Paraná terminou com chuva acima da média. Entre junho e agosto, a Defesa Civil estadual contabilizou 228 ocorrências de tempo severo em 150 municípios, e 39 cidades decretaram situação de emergência. Em setembro, 33 estações do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) já haviam superado a média de chuva do mês até o último domingo (20). “A gente paga o preço quando um efeito climático acumula um volume de água muito forte naquela região”, diz Marcelino. Chuvas acima de 50 mm ou 60 mm costumam gerar escoamento não uniforme e alagamentos. A resposta passa por duas frentes, envolvendo uma pavimentação mais permeável, com cimentos e concretos que aumentam a absorção de água, e estações climáticas inteligentes, capazes de gerar alertas em tempo real diante de mudanças bruscas de vento, umidade ou volume de chuva acumulada, dando tempo para a Defesa Civil agir antes do desastre. Em fevereiro, Curitiba recebeu o primeiro alerta de emergência por cell broadcast, quando o Simepar identificou risco de rajadas de até 80 km/h e chance de granizo. A tempestade chegou a afetar cerca de 8,8 mil pessoas com quedas de energia, mas o alerta deu tempo para medidas preventivas antes do pior do temporal. Um exemplo semelhante é no Rio de Janeiro, que conta com a Defesa Civil para enviar alertas automáticos para o celular da população em caso de situações classificadas como de risco severo ou extremo. Ainda assim, há casos de cidades tidas como referência também já foram pegas de surpresa. Em Zurique, na Suíça, uma tempestade recente registrou ventos de até 140 km/h, gerou mais de 400 chamadas aos serviços de emergência da cidade e interrompeu trens e ônibus por causa de ruas alagadas. Em outro episódio, uma chuva de granizo chegou a contaminar a rede de água potável de duas localidades e interrompeu por meia hora as operações do aeroporto da cidade. “Não só Copenhague, mas outras cidades vêm passando por problemas graves. A própria Zurique, na Suíça, assustou muito os moradores recentemente com uma chuva fortíssima. Eventos raros que combinam chuva, vento e granizo causam problemas severos ao comércio, às pessoas, ao trânsito e ao turismo”, diz Marcelino. A solução de 50 anos que ainda funciona Parque Barigui em Curitiba (PR). Prefeitura de Curitiba/Divulgação. A pergunta que fica é se uma resposta de longo prazo, como as adotadas por cidades europeias, é viável para uma cidade brasileira, com orçamento bem menor. “Com certeza”, responde ele. E aponta um exemplo que já existe no país. A rede de mais de 50 parques criada por Jaime Lerner em Curitiba há mais de cinco décadas, muitos deles funcionando como ‘parques-esponja’, construídos no próprio leito de rios como o de Barigui. O modelo remonta a 1972, quando o então prefeito Jaime Lerner inaugurou o Parque Barigui como um ‘parque linear’, com a função de preservar a vegetação e conter as enchentes do rio, solução depois repetida em outros pontos da cidade. Curitiba soma hoje 54 parques e bosques públicos e aumentou em 6 metros quadrados de área verde por habitante, bem acima do mínimo de 12 metros quadrados recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Um exemplo mais recente da mesma lógica é a Bacia de Detenção do Rio Mossunguê, no bairro Campo Comprido, inaugurada em março para funcionar como área de lazer e contenção de cheias na zona oeste da cidade. Bacia de Detenção do Rio Mossunguê. Ricardo Marajó/SECOM. “Ao criar um parque ao redor do rio, você afasta as casas e os loteamentos daquela margem, dando espaço para o rio transbordar e funcionar como uma bacia de drenagem natural”, explica Marcelino. Os parques Barigui, Tingui, Tanguá e Atuba cumprem exatamente essa função. Quando chove, o rio sobe dentro da área do parque em vez de invadir residências, e depois retorna ao normal. “Essa é uma atitude que não custa tanto”, resume. “Essa solução de infraestrutura verde está muito em voga hoje em dia, sendo uma alternativa plenamente viável para a realidade brasileira e fundamental diante dos crescentes impactos climáticos”, conclui. Isso mostra que apesar dos desafios enfrentados pelas cidades diante das mudanças climáticas, a natureza ainda pode ser uma aliada na prevenção de enchentes, inundações e impactos ambientais extremos.